Mais de 50 pessoas acampam no Porto pelo direito à habitação
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Mais de 50 pessoas estão acampadas desde sábado na Praça D. João I, no centro do Porto, pelo direito à habitação e contra o custo de vida, sem perspetiva de desmobilizarem.
Uma das pessoas que passaram a última noite na praça em frente ao Rivoli é Inês Faria, que acampa "pelo direito pela habitação e para protestar contra o aumento do custo de vida", na sequência da manifestação sobre estes temas realizada durante a tarde no Porto e noutras cidades.
Os manifestantes planeiam reunir-se todos os dias, ao final da tarde, em assembleia popular, para avaliarem se continuam a ter condições para pernoitar mais uma noite, não conseguindo, por isso, perspetivar quanto tempo durará a "acampada".
Havia cerca de 50 pessoas "espalhadas por 40 a 50 tendas" na última noite, mas hoje são mais.
"Estamos à espera que venha mais gente, já montaram entretanto mais duas ou três [tendas]", descreve Inês, que explica que organizaram as tendas de forma a criar corredores de passagem e a não bloquear as entradas para o parque de estacionamento subterrâneo junto à praça, e que têm uma tenda dedicada a guardar comida e outra montada para ser um género de enfermaria.
A quem não pode acampar em frente ao Teatro Municipal do Porto os participantes deixam um apelo: "Que se juntem a nós, estamos abertos à participação de toda a gente. Não têm de vir dormir, podem só trazer mantimentos e ajuda."
Também Lokas Cruz se juntou ao acampamento e, à Lusa, explica que ali se reivindica aos governantes que a nova Lei do Arrendamento seja revertida, e ainda que "baixem as rendas, imponham tetos máximos, aumentem o parque público de habitação". A expropriação dos imóveis de fundos imobiliários e dos prédios devolutos desocupados é outro pedido.
"Apelamos muito àquelas pessoas que, por condições de vida, por precariedade, por questões laborais, não podem dormir aqui que venham durante o dia, que venham partilhar as refeições connosco, que venham às assembleias populares, que venham cá conversar connosco", acrescentou.
No mesmo acampamento, estava Clara (nome fictício), uma mulher espanhola de 34 anos que quis partilhar a sua história, mas que pediu para não ser identificada por medo de represálias por parte do seu senhorio.
A manifestante conta que durante a pandemia começou a morar numa casa na cidade, juntamente com mais três pessoas, que era até então usada como alojamento local, mas que não estava a ser ocupada devido aos confinamentos da pandemia de covid-19.
A casa nunca deixou de estar registada como alojamento local, porque o seu proprietário teria de pagar mais impostos por a registar como habitação permanente, diz a mulher. Por este motivo, nunca conseguiu declarar o dinheiro que paga de "renda" no seu IRS.
E se no primeiro ano conseguiu um género de contrato de arrendamento para 12 meses, Clara e os colegas de casa dizem ter sido forçados a assinar um contrato que se renova mensalmente.
"Como é que uma pessoa consegue pensar no seu futuro, se tem que viver mês a mês?", desabafa, explicando que se "sujeitaram" a essa situação por já não conseguirem arranjar uma casa para quatro pessoas pelo preço que pagam, de 1.200 euros mensais.
No sábado, cerca de 1.500 pessoas manifestaram-se no Porto em protesto contra o aumento do custo de vida e da habitação.
A concentração foi organizada pela plataforma "Não dá mais para viver assim", que promoveu protestos também em cidades como Aveiro, Braga e Lisboa.